12 maio, 2009

A Doutrina do Presbiterato na História da Igreja.

Dr. Emil Brunner, em sua obra de Eclesiologia: “O equívoco sobre a Igreja” apresenta sua tese sobre o desenvolvimento histórico da tradição e dos seus diferentes sentidos ao longo da história da igreja. Entretanto, desta obra mais precisamente deste capítulo sobre a comunidade cristã e a tradição retiramos a divisão histórica que, agora passaremos a utilizar por entender que ela se encaixa também na história da hierarquização da Igreja, quando a comunidade deixa o modelo do Novo Testamento e passa a para o Catolicismo Primitivo chegando enfim ao modelo Católico Romano que tem como figura suprema de autoridade o próprio Papa e desta para a posição da Reforma que foi uma ruptura com a concepção hierárquica de Roma e uma tentativa de retornar ao modelo da comunidade do novo testamento.
1. Modelo do Cristianismo Primitivo.
Este é o período que o novo testamento abrange. Nele vamos encontrar um modelo de Igreja e de governo eclesiástico diferente do modelo hierárquico das Igrejas Episcopais e um modelo com uma unidade muito maior do que no sistema de governo congregacional. Um modelo que respeita tanto a unidade da Igreja quanto o poder com que Cristo revestiu esta comunidade. Haveremos de encontrar um modelo que nos seus moldes fundamentais se identifica e muito com o atual modelo representativo de Governo. Sobre este governo da Igreja primitiva o historiador da Igreja Earle E. Cairns diz o seguinte: Os Apóstolos tomaram a iniciativa no desenvolvimento de outros ofícios na igreja quando dirigidos pelo Espírito Santo. Isto não significa uma hierarquia piramidal, como a desenvolvida pela Igreja Católica Romana, por que os novos oficiais deviam ser escolhidos pelo povo, ordenados pelos apóstolos, e precisavam ter qualificações próprias que envolviam subordinação ao Espírito Santo. Assim havia uma chamada interna pelo Espírito Santo para o ofício, uma chamada externa pelo voto democrático da Igreja e a ordenação ao ofício pelos Apóstolos. Não deveria haver uma classe especial de sacerdotes à parte para ministrar o sistema sacerdotal da salvação, por que tanto os oficiais da Igreja como os membros eram sacerdotes com o direito de acesso a Deus através de Cristo (Efésios 2:18)” Sobre o ofício de presbítero propriamente dito, Cairns assevera que os termos Bispo e Presbítero são intercambiáveis no século I só aparecendo com sentidos distintos em documentos do século II. Embora tal distinção já exista a partir do segundo século. O teólogo católico José Ignácio Gonzáles Faus assevera que as eleições dos oficiais por parte das igrejas locais ainda durou por muito tempo, sendo alvo de constantes ambigüidades nos documentos oficiais na medida em que a Igreja se hierarquizava. Dos diversos documentos que este autor cita da história da Igreja selecionamos um de Hipólito da obra denominada Tradição Apostólica que datam do século III o qual diz: “Que se ordene como bispo aquele que, sendo irrepreensível, tenha sido eleito por todo o povo”. Quando seu nome for revelado e este tiver aceitado, se reunirão num domingo o povo com presbitério e os bispos que estiverem presentes.Com o consentimento de todos, os bispos lhes imporão as mãos enquanto o povo permanece de pé. Todos se conservem em silêncio orando em seu coração para que desça o Espírito. Depois disso em nome de todos, um dos bispos lhe imporá as mãos dizendo:...(segue o texto de uma prece de súplica). Tal documento já é suficiente para sabermos, porém quão diferente foi a pratica da Igreja Cristã nas suas origens da prática hierárquica da Igreja católica romana. Poderíamos dizer que o modelo neo-testamentário era semelhante ao do diagrama abaixo. Sendo PB igual a presbíteros e as setas mostrando o fluxo do poder.

2. Modelo do Catolicismo Primitivo.
Este segundo período para Brunner tem como característica o processo de reação as diversas heresias que estavam ocorrendo neste período com base nesta situação a igreja tende a centralizar-se cada vez mais e o poder lentamente deixa de ser exercido pela comunidade na eleição dos seus oficiais e passa a ser algo exclusivo na mão de poucos. Data deste período também a lista da sucessão correta de bispos de Hegésipo que remontaria ao período dos apóstolos e a sucessão diretamente dos apóstolos. Também é neste período que em que o corre o fechamento do cânon do novo testamento. E é também o período dos pais da Igreja e dos concílios ecumênicos que definiram os grandes dogmas da Igreja. O nome catolicismo primitivo ocorre por que neste período alguns bispos monárquicos que já eram considerados superiores aos demais presbíteros, passam agora a ter autoridade sobre os outros bispos monárquicos. Estes bispos que se levantam acima dos demais bispos e por conseqüência dos presbíteros das igrejas locais passam a ser conhecidos como Patriarcas. Cairns pinta um bom quadro acerca deste processo de exaltação do bispo sobre os demais presbíteros: “Necessidades práticas e teóricas levaram à exaltação da posição do bispo em cada Igreja, chegando ao ponto de as pessoas o virem e o reconhecerem como superior aos outros presbíteros aos qual o seu ofício fora relacionado em tempos do Novo Testamento. A necessidade de uma liderança para enfrentar os problemas da perseguição e da heresia foi uma necessidade prática que acabou por ditar o aumento do poder do bispo. O desenvolvimento da doutrina da sucessão apostólica e a crescente exaltação da Ceia do Senhor foram fatores fundamentais neste aumento de poder. Foi mais um pequeno passo para o reconhecimento de que os bispos monárquicos de algumas igrejas eram superiores aos outros. A elevação do bispo monárquico em meados do século II originou o reconhecimento da honra especial devida ao bispo monárquico da Igreja de Roma.” Como se pode ver lentamente a igreja saiu de um sistema representativo para um episcopalismo que fatalmente culminaria no Papa. No modelo do catolicismo primitivo a Igreja é governada pelo consenso dos patriarcas que como bispos dos tem pais iguais entre si. Muito embora desde cedo o bispo de Roma em documentos buscava afirmar a sua supremacia.

3. Modelo Católico Romano.
Cairns apresenta o lento processo pelo qual o bispo de Roma cada vez mais cresceu em poder: “Na Igreja primitiva o bispo era considerado um dos muitos bispos iguais entre si em posição, autoridade e função. No período compreendido entre 313 e 590, o bispo romano passou a ser reconhecido como o primeiro entre os iguais. A partir, porém, da ascensão de Leão I ao trono episcopal e, 440, o bispo de romano passou a ser reconhecido como primeiro entre os iguais.” Porém os outros patriarcas por serem orientais, não aceitavam como natural esta “primazia” do bispo de Roma. Como tão bem nos explica Gonzáles Faus de que forma isto ocorre? Emil Brunner nos apresenta uma importante contribuição acerca desta questão: “O que aconteceu na metade do décimo segundo século na igreja Romana Ocidental é surpreendentemente pouco conhecido, embora seja de enorme significado. Este estado de coisas originou-se do fato que no Cristianismo não Romano, os teólogos em geral não sabiam o suficiente sobre jurisprudência, enquanto que os advogados não entendiam o suficiente de teologia, a fim de entender e medir a importância do que acontecia na Cúria romana de então.” E o que foi que aconteceu? Brunner explica que no século XII há por assim dizer, uma revolução na forma como a igreja passou a se compreender. A Igreja agora deixa de ser o cristianismo representado na pessoa dos bispos e passa agora a ser uma “corporação” governada pelo Papa. O Papa passa a representar para Igreja o que os magistrado e reis são para o Estado. A Igreja segundo Brunner passa a ser administrada a maneira do Estado. Uma das muitas implicações deste conceito é que agora o Papa não se submete mais a concílios uma vez que a sua palavra é a própria expressão da corporação. A semelhança dos absolutistas que diziam o “Estado sou eu” o Papa poderia ter dito “A Igreja sou eu”. E como ocorreu esta virada teórica acerca do que é Igreja? Isto ocorre com redescoberta do direito romano e a sua sistematização no direito canônico que incorporou muitos elementos da antiga estrutura de Estado Romana. Abaixo o diagrama da Igreja como corporação e do Papa como líder inconteste da Igreja. Este modelo só virá a ser quebrado na Igreja com a reforma protestante que entre outras coisas associou o Papa ao Anticristo.





Por Manoel Delgado

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