15 maio, 2009

Teologia Sistemática Hoje - Julio Zabatiero


No III Congresso Brasileiro de Teologia Vida Nova, discutiu-se a questão da interpretação da Bíblia, nas suas várias teorias e práticas presentes no Brasil atual. Dentre os importantes tópicos tratados, um me chamou a atenção por causa de um certo anacronismo, a meu ver: a denúncia da teologia sistemática como não-bíblica e a sua conseqüente substituição pela teologia bíblica (isto é, duplamente bíblica: porque tematiza as teologias na Bíblia e porque é fiel à Bíblia). Como biblista, eu teria tudo para unir minha voz a esse coro profético, entretanto, prefiro ser uma voz dissonante neste caso. Por quê?

Primeiro, porque a teologia sistemática dos últimos cinqüenta anos mudou, e mudou muito a sua relação com a Bíblia. Se é verdade que a acusação de filosofismo ou doutrinismo poderia valer para a sistemática clássica, como observaram os fundadores da teologia bíblica no século XIX, isto já não tem o mesmo peso para a sistemática contemporânea. Esta, apesar das muitas tendências, reconhece a necessidade de se basear de forma mais consistente na Escritura, evitando o velho e clássico método dos textos-prova – que não provam nada, a não ser os gostos do teólogo. Leia os livros de sistemática de Jürgen Moltmann, por exemplo, e você terá o prazer de ler uma sistemática bíblica...

Segundo, porque a crença de que a teologia bíblica (a disciplina acadêmica com esse nome) é mais bíblica do que a sistemática por não se deixar influenciar pela filosofia (como se acreditava no início da disciplina), não passa de uma doce ilusão. Uma ilusão acalentada em ambientes teológicos bastante distintos entre si. No ambiente acadêmico e eclesiástico de cunho mais racionalista, acreditava-se que a ciência "teologia bíblica" representaria uma leitura histórica objetiva da Escritura. Nos ambientes mais conservadores, por incrível que pareça, se pensava a mesma coisa – com argumentos diferentes, é claro.

Ambos se submeteram à ilusão positivista: a possibilidade de um conhecimento plenamente objetivo, derivado totalmente do objeto da pesquisa, não atrapalhado por aspectos da subjetividade do pesquisador. A virada lingüística e a nova física, no século XX, revelaram o caráter ilusório dessa crença: todo conhecimento é conhecimento produzido por alguém e, no ato mesmo de sua produção, o pesquisador já interfere no objeto pesquisado.

Aproveitei este assunto que me chamou a atenção no Congresso para afirmar a importância e a necessidade de uma teologia sistemática contemporânea. Que cara teria essa sistemática? Não seria, certamente, um ambicioso sistema que englobasse tudo que se pode dizer sobre Deus e suas relações com o cosmos. Deveria ser um sistema aberto , flexível, que – a partir da Escritura – procurasse encontrar respostas teologicamente adequadas e significativas para os problemas atuais. Para os problemas religiosos e, especialmente, para os problemas ecológicos e sociais.

Em uma época de conhecimentos fragmentados, precisamos pensar de forma mais global – mesmo reconhecendo o caráter parcial desse esforço de totalização. Que tem isso a ver com a prática cristã no dia-a-dia? Pelo menos nos ajudaria a fugir do imitacionismo de modelos enlatados e pacotes prontos para o sucesso da vida cristã e do ministério. Positivamente, nos ajudaria a enxergar além de nossos próprios narizes eclesiásticos e olhar para o mundo todo sob a ótica da missão de Deus para o Seu povo. Na era da globalização, respostas exclusivamente locais são pouco eficazes; tão pouco eficazes quanto respostas exclusivamente globais. Diz-se por aí "pense globalmente, aja localmente" – este poderia ser um slogan renovado para uma nova teologia sistemática.

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