11 maio, 2010

SARADORES FERIDOS


Saradores Feridos

Mas Jesus, ouvindo, disse: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero e não holocaustos; pois não vim chamar justos, e sim pecadores. (Mt 9:12-13)

Subjaz à afirmação de Jesus destacada acima o conceito de cuidado conforme entendido e proposto por L. Boff: esta dimensão de maturação, de desenvolvimento, de evolução e desabrochamento que todos nós carecemos e precisamos experimentar. Pois vivemos na ambigüidade de nossa existência caída, afetada pelo pecado original. Como bem sintetizou o apóstolo Paulo: “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3:23). A saúde assim, relaciona-se com a capacidade de reconhecer-se doente e, ironicamente, a enfermidade tem a ver com a ilusão de que se é são. Em outras palavras: quem julga não precisar de amadurecer, desenvolver, e evoluir encontra-se gravemente enfermo enquanto a sanidade depende da honestidade de reconhecer-se doente, isto é, carente do cuidado, da cura de Deus.

Um dos maiores riscos que correm pastores e cuidadores em geral talvez seja o de pensar que por serem instrumentos de cura e cuidado para outros estejam em condições de dispensarem cura e cuidado para si, para suas próprias vidas. Com efeito, há quem imagine que a posição pastoral lhe garante saúde e integridade, mas a experiência e, sobretudo as Escrituras, dão testemunho do contrário. Um exemplo emblemático deste tipo de enfermidade eram os fariseus: julgavam-se imunes às doenças que pretendiam curar nos outros. Não sabiam, na verdade, o quão enfermos estavam. Na igreja de Laodícea (Ap 3:17), encontramos outro exemplo de gente doente que se julgava sã: “Tu dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu”.

De outra parte, freqüentemente encontramos nas Escrituras exemplos de homens e mulheres que, justamente por estarem conscientes de suas feridas e debilidades, foram usados por Deus como veículos de cura e cuidado para outros. Depois do próprio Senhor Jesus, Paulo é talvez o personagem neotestamentário que melhor ilustra esta verdade. Escrevendo aos romanos, ele fala de sua enfermidade profunda, da angústia que ela lhe causava. Cheio de dor na alma, ele exclama: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7:24). Foi esta consciência que ajudou o apóstolo a manter-se de pé, pois à medida que reconhecia suas limitações, abria-se para a presença terapêutica de Deus e, assim, aprendia a ser um sarador ferido conforme a expressão de Henry Nouwen. Pois somente aquele que se sabe carente de cura e cuidado tem maturidade para ajudar o outro a lidar com a verdade acerca de si mesmo e, deste modo, fugir da armadilha do auto-engano. Dito de um modo diferente: somente quem sabe ter uma trave no próprio olho pode ajudar o outro a enxergar o cisco que encontra-se no dele.

Outro personagem bíblico, desta vez do AT, que retrata bem a figura do sarador ferido é Davi. No relato de 1Sm 22, o vemos refugiado na caverna de Adulão. Diz-nos a narrativa que a ele se ajuntaram “todos os que se achavam em aperto, todos os endividados e todos os amargurados de espírito; e ele se fez chefe deles” (v. 2). Fugir com medo e buscar abrigo é uma atitude que poucas pessoas tem coragem de assumir conquanto muitas vezes sinto o impulso de fazê-lo. Porém quando alguém ousa romper com a tácita imposição cultural pela qual não podemos revelar nossa fraqueza e vulnerabilidade, aqueles que temiam fazê-lo, encontram coragem e sentem-se libertos para assumir sua própria fragilidade achando, finalmente, abrigo e aceitação que lhe servirão mais tarde para sair daquela caverna e enfrentar novamente o mundo.

Por ignorância ou arrogância, muitos pastores e cuidadores deixam de reconhecer suas limitações e assim vivem algo que não correspondem ao que são. E por não saberem quem são, não podem ajudar outros a descobrirem sua verdadeira identidade. Assim, aqueles que deveriam ser instrumentos de cura e cuidado se tornam elementos perpetuadores da doença alheia e da própria. Buscando ser heróis, agem como anti-heróis; embora queiram ser amigos, acabam encarnando o inimigo.

Jesus, o sarador ferido por excelência – aquele que não se apegou a sua condição divina e poderosa, mas se fez um como nós assumindo nossa limitação e fragilidade humana –, não chamou ninguém para ser herói, mas chamou – e enviou – discípulos para serem, como ele, saradores feridos. E seus discípulos somente foram capazes de levar a diante tal chamado e envio, pois, tendo reconhecido sua ambigüidade radical e carência profunda, deixaram-se sarar primeiro e, no processo, aprenderam a se deixar cuidar de modo contínuo e permanente. Pois como nos ensina Henri Nouwen, aproximar-se do outro ferido nos ajuda a enxergar nossa própria enfermidade, nossa chaga aberta e não tratada. Assim, os discípulos descobriram que o processo mesmo de cuidar é simultaneamente um processo de ser cuidado. Quanto mais cuidavam, mais eram sarados. Enfim, eram realmente saradores feridos e por isto mesmo se tornaram feridos sarados.

Pr. Leandro Marques e Pr. Adriano Ribeiro Fonte site da Igreja Betânia RJ.

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