21 janeiro, 2012

Fora da Igreja não há Salvação!


O Pensamento de Cipriano de Cartago
Cipriano. Ícone da Igreja Grega Ortodoxa.

1.   Quem foi Cipriano de Cartago?
        Cipriano foi Bispo de Cartago. Nasceu em 210 e em 258 morreu como mártir da Igreja. È um dos grandes Pais da igreja e pertenceu com Tertuliano a famosa Escola de Cartago que fundou a teologia latina[1].
Homem de posses teve uma excelente educação foi advogado e em 247 se tornou sacerdote, em 249 já era Bispo e não muito depois passou a ter exercer a superintendência sobre diversos Bispos da região os quais o chamavam de “Papa Cipriano” devido a sua influência espiritual sobre os mesmos.  Sua principal obra é a “Unidade da Igreja Católica” obra esta que ele destinou aos cismáticos seguidores de Novaciano. Nesta obra é que ele apresentada pela primeira vez na história da Igreja uma formulação da doutrina episcopal.  

2. Sua Principal Obra: A Unidade da Igreja Católica.
        Esta obra embora pequena é um marco na história da doutrinas cristãs e sua  influencia se estende até os dias de hoje nas três principais tradições do cristianismo: Protestante, Ortodoxa Grega e Católico Romana.  
As obras de Cipriano são de rara beleza retórica sendo todas clássicos da teologia cristã sobre isto González diz :

Cipriano era hábil em retórica, e sabia expor seus argumentos de maneira esmagadora. Seus escritos, muitos dos quais se conservam até o dia de hoje, são preciosas jóias de literatura do século III [2]

        É o pensamento contido nesta obra acerca do governo da Igreja que passaremos a seguir a analisar.    

 3.   Sua idéia sobre a Sucessão Apostólica.
Cipriano foi um defensor da doutrina da sucessão apostólica como se pode observar neste trecho de obra:
Assim fala o Senhor a Pedro: "Eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas dos infernos não a vencerão. Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus e tudo o que ligares na terra será ligado também nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado também nos céus" (Mt 16,18-19). Sobre um só edificou a sua Igreja. Embora, depois da sua ressurreição, tenha comunicado igual poder a todos os Apóstolos, dizendo: "Como o Pai me enviou, eu vos envio a vós. Recebei o Espírito Santo, a quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados, a quem os retiverdes ser-lhe-ão retidos" (Jo 20,21-23), todavia, para tornar manifesta a unidade, dispôs com a sua autoridade que a origem da unidade procedesse de um só.” [3]
A sua interpretação dos textos de Mateus 16:18-19 e de João 20: 21-23 o levaram a pensar que existe uma linha sucessória ininterrupta entre os apóstolos e os bispos a partir de Pedro que para ele possuiria o “primado” .
Para Cipriano quem não estivesse debaixo da autoridade de um Bispo em sucessão direta aos apóstolos não poderia ser considerado como em unidade com a Igreja:    
“O Espírito Santo, falando na pessoa do Senhor, designa esta Igreja única quando diz no Cântico dos Cânticos: "Uma só é a minha pomba, a minha perfeita, única filha da sua mãe e sem igual para a sua progenitora" (Cânt 6,9).”[4]
“Aquele que não guarda esta unidade poderá pensar que ainda guarda a fé? Aquele que resiste e faz oposição à Igreja poderá confiar que ainda está na Igreja?”[5]
Paulo apóstolo inculca o mesmo ensinamento e mostra o sacramento da unidade, dizendo: "Um só corpo e um só espírito, uma é a esperança da vossa vocação, um Senhor, uma fé, um Batismo, um só Deus" (Ef 4,4-5). Aquele que não guarda esta unidade, proclamada também por Paulo, poderá pensar que ainda guarda a fé? Aquele que abandona a cátedra de Pedro, sobre o qual foi fundada a Igreja, poderá confiar que ainda está na Igreja?”[6]
Cipriano atrela a submissão aos Bispos com a unidade da Igreja a tal ponto que ele afirma que não estiver ligado a “cátedra de Pedro”  não está ligado a Igreja de Cristo.

4. “Fora da Igreja não há salvação”
        Assim a conseqüência natural do seu pensamento é que uma vez desligado da “Igreja” desligado de Cristo e por conseqüência desligado da salvação oferecida em Cristo:

Aquele que, afastando-se da Igreja, vai juntar-se a uma adúltera, fica privado dos bens prometidos à Igreja. Quem abandona a Igreja de Cristo não chegará aos prêmios de Cristo. Torna-se estranho, torna-se profano, torna-se inimigo.
Não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por mãe. Como ninguém se pôde salvar fora da arca de Noé, assim ninguém se salva fora da Igreja.
            O Senhor nos alerta e diz: "Quem não está comigo está contra mim, quem comigo não recolhe, dissipa" (Mt 12,30). Quem rompe a paz e a concórdia de Cristo trabalha contra Cristo. Quem faz colheita alhures, fora da Igreja, esse dissipa a Igreja de Cristo.[7]

Prevendo que os Novacianos[8] pudessem apelar para a sua fé em Cristo. Dizendo que como eles possuem fé em Cristo conseqüentemente eles estão salvos e por esta razão unidos a Igreja Cipriano diz que a fé de uma pessoa desobediente a Cristo é questionável. E ele crê que uma pessoa que não estivesse em submissão ao Bispo estaria em insubmissão a Cristo e para ele a fé autentica implica em obediência a Cristo ele questiona quem não tem Cristo como Senhor como terá como Salvador?

Aquele que não guarda esta unidade poderá pensar que ainda guarda a fé? Aquele que resiste e faz oposição à Igreja poderá confiar que ainda está na Igreja?”  [9]   

5. Sobre a Igualdade do Bispo de Roma com os demais Bispos.
            Um ponto de destaque na obra de Cipriano é que o mesmo não faz diferença entre o Bispo de Roma e os demais Bispos que para ele tinha direitos, obrigações e poderes iguais:

“É verdade que os demais Apóstolos eram o mesmo que Pedro, tendo recebido igual parte de honra e de poder, mas a primeira urdidura começa pela unidade a fim de que a Igreja de Cristo aparecesse uma só.”[10]  
“E, depois da ressurreição, diz ao mesmo: "Apascenta as minhas ovelhas" (Jo 21,17). Sobre ele só constrói a Igreja e lhe manda que apascente as suas ovelhas. Embora comunique a todos os Apóstolos igual poder, todavia institui uma só cátedra, determinando assim a origem da unidade. É verdade que os demais [Apóstolos] eram o mesmo que Pedro, mas o primado é conferido a Pedro para que fosse evidente que há uma só Igreja e uma só cátedra. Todos são pastores, mas é anunciado um só rebanho, que deve ser apascentado por todos os Apóstolos em unânime harmonia.” [11]

6.  Sucessão Apostolica: Implicações. 
        Para Cunningham[12] a sucessão apostólica é a “grande contribuição de Cipriano para o progresso do erro e da corrupção da Igreja”, podemos dizer que Cipriano foi o primeiro sistematizador da eclesiologia episcopal e que a sua idéia de que a Igreja “são os bispos em sucessão apostólica” e não o “Corpo de Cristo” foi a porta aberta para toda a sorte heresias e abusos subseqüentes. A porta que Cipriano abriu nesta sua obra continua aberta até hoje no Romanismo e na Igreja Ortodoxa Grega. E embora ele não considerasse o Bispo de Roma como o superior aos demais a sua idéia levada as suas conseqüências lógicas certamente conduziria a isto.      
      Digno de nota é que Agostinho de Hipona, Eusébio de Cesaréia, Anselmo da Cantuária, Tomáz de Aquino entre muitos outros formularam as suas teologias da Igreja tendo o episcopalismo de Cipriano como inspiração[13].
            E este desvio teológico da Igreja, só vai ser devidamente corrigida, na reforma do século XVI, mais precisamente, na reforma radical promovida por Zuinglio e Calvino. Uma vez que em Lutero, embora a sucessão apostólica seja negada, o modelo episcopal não é.


[1]  CAIRNS, Earle A. O Cristianismo Através dos Séculos, pág. 91-92
[2] GONZALEZ, Justo L. A Era dos Mártires, História Ilustrada do Cristinanismo, São Paulo, Edições Vida Nova, 1993, pág.142
[3] CIPRIANO DE CARTAGO, A Unidade Da Igreja Católica, disponível em http://www.geocities.com/Athens/Aegean/8990/patrist.htm,  acessado em 21/12/2005
[4] Op. cit.
[5] Op. cit
[6] Op.cit.
[7] Op.cit.
[8] Op. cit pág. 99. Seguidores de Novaciano, líder de uma facção do cristianismo que rompeu com o episcopado. De acordo com dicionário dos interpretes da fé,  Novaciano fez a maior contribuição para doutrina da trindade desde de Tertuliano.
[9] Op.cit.
[10] Op. cit.
[11] Op. cit.
[12] BERKHOF, Louis, A História das Doutrinas Cristãs, São Paulo PES, 1990, Pág. 206
[13] Também é verdade que estes pensadores estavam focando as suas atenções a outros temas que eram controversos em sua época. 

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