18 dezembro, 2013

ANÁLISE DO ARTIGO: A espiritualidade cristã e a ação histórica.



       O artigo do professor Maurício Abdalla Guerrieri[1], para a revista “Vida Pastoral”, publicação voltada para sacerdotes e agentes de pastoral católica, tem por objetivo apresentar o tema da espiritualidade no contexto da igreja brasileira a partir do fazer teológico e da práxis cristã, visando à retomada do paradigma bíblico de espiritualidade, paradigma que estaria associado ao pensamento concreto hebraico e a partir de uma abordagem integral do ser humano.
        O autor inicia sua apresentação do tema demonstrando o paradoxo da espiritualidade brasileira, que seria constatado num primeiro momento pelo positivo aumento de publicações e pelo interesse crescente dado ao tema no contexto brasileiro, mas por outro lado, e de maneira negativa, pelas distorções que estas expressões de espiritualidade apresentaram, em conseqüência das categorias de pensamento em que elas teriam sido constituídas, sob a influencia da cosmovisão dualista ocidental moderna.
     Este dualismo, de origem grega platônica e com desdobramentos modernos de feições cartesianas seria o responsável por tal distorção, uma vez que, ele seria o responsável pela fragmentação e separação dos conceitos (pensamento abstrato) e de oposições artificiais de idéias, que são integradas no complexo humano. Tal dualismo seria percebido nos aparentes contrastes das expressões “teoria e prática”, “razão e experiência”, “oração e ação”, “carinho e severidade”, “corpo e alma”, “espírito e matéria” entre outros... A conseqüência deste pensamento seria a supervalorização do espiritual, visto em termos imateriais e o conseqüente desprezo pelo material, o mundo concreto da vida e dos homens.
        O pensamento hebraico por sua vez, seria o que melhor representa a cosmovisão dos autores canônicos e que por sua vez, representa a perspectiva fundante da espiritualidade cristã. Tal abordagem para o autor pode ser exemplificada no próprio termo “espírito” que na linguagem hebraica descreve o ser integral e não apenas uma parte constituinte do homem. Assim, uma espiritualidade verdadeiramente cristã seria uma espiritualidade complexa, envolvendo todos os aspectos da vida humana.
    E para expressar estas duas perspectivas o autor apresenta duas imagens com o objetivo de melhor ilustrar esta perspectiva, a metáfora do estilingue e a alegoria do barco a vela.
    Na metáfora do estilingue a espiritualidade estaria associada à cosmovisão dualista, sendo uma distorção. Pois nesta abordagem o espírito é algo distinto do corpo e sem relação com a vida material, ou no máximo uma força impulsionadora, mas desconectado do objeto impulsionado.  
   Na alegoria do barco a vela, a espiritualidade verdadeiramente cristã, é comparável a um barco a vela singrando o oceano em direção a um novo mundo. Esta alegoria proposta pelo autor, possui forte apelo identitário para o latino, tendo em vista as grandes navegações ibéricas, e a nossa história colonial. Nesta alegoria, cada elemento é importante e corresponde a um aspecto da espiritualidade da ação sendo que:

1. O vento e a vela – Apontam para o Espírito (Pneuma) que é o impulsionador que está presente, atuando de maneira misteriosa, (incontrolável, imprevisível, incompreensível muitas vezes) e que requer daquele que com ele se relaciona: abertura “hastear as velas”, e mística o reconhecimento do mysteriom.

2. O mar – Está representando o mundo atual, que é o ponto de travessia e o local da ação transformadora, local turbulento de águas revoltas, mas também o local onde o sopro do Espírito se faz presente. Onde a igreja atua contra as causas do mal e não apenas contra os seus efeitos.
3. A bússola – É o referencial da travessia, correspondendo à bíblia e aos evangelhos como os marcos norteadores da navegação.

4. A terra – Como um novo mundo; apontando para a concretização escatológica de toda a esperança cristã, com implicações para toda a criação.
Por fim, o autor apresenta a encarnação como à expressão máxima desta unidade e conclama o leitor a desenvolver uma espiritualidade cristã da ação histórica.    





[1] Possui licenciatura plena em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1990), mestrado em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (2009). Atualmente é professor adjunto do departamento de Filosofia da Universidade Federal do Espírito Santo. Fonte: Plataforma Lattes http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?metodo=apresentar&id=K4791067T8 Em 18 de dezembro de 2013, 23:30. 

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