15 janeiro, 2016

A GRANDE MIRAGEM.

Falso oásis no deserto.
O conceito de teocracia cristã. É derivado da fusão da cosmovisão cristã[1] com o sistema imperial romano[2] e a sua consequência objetiva foi uma estabilização de mil anos num império que sucumbia. O pretenso domínio cristão sobre as esferas da vida não se deu em bases cristãs, mas sim pagãs. A medida que o cristianismo dominava as esferas da vida do império. Sorrateiramente era dominado, reformulado e adequado até que o mesmo fosse essencialmente o que seu antecessor era: uma força ideológica a serviço do império.

O cristianismo dominou a religião, mas por meio da substituição do sacerdotalismo pagão, pelo sacerdotalismo cristão[3], pela adesão ao conceito de religião oficial, da aceitação irrestrita das estruturas organizacionais que o império disponibilizou para este domínio e por fim pelo uso da força coercitiva do estado impostas sobre as consciências como meio de dominação religiosa. Os presbíteros-epíscopos, agora como sacerdotes hierarquizados se tornaram gradualmente ministros religiosos do império. Conservaram-se os paramentos, os títulos, os privilégios e até mesmo as dioceses do antigo sistema.

A igreja dominou as ciências, subordinando as várias disciplinas, a teologia. Mas para a sistematização do pensamento teológico, a mesma, se valeu da filosofia grega em especial os sistemas neoplatônico e aristotélico. Os principais paradigmas desta produção são o agostinianismo[4] e o tomismo respectivamente. Mas estas sínteses não foram feitas sem que houvessem vigorosos protestos de mentes pensantes como as de Tertuliano que nos seus dias denunciou o que ele considerava uma aliança perigosa entre Jerusalém e Atenas[5]. As universidades, fruto destas sínteses, nascem com a proposta de harmonizar a teologia com as demais ciências.

O domínio cristão nas relações de trabalho fundamentou-se nos conceitos de harmonia social, dignidade humana, e preço justo. Tal perspectiva buscava trazer estabilidade social e econômica ao império compreendendo os estamentos sociais como derivação da vontade divina. Existem os que trabalham, os que governam, os que lutam e também os que oram. A coesão social medieval derivou destas percepções.

O domínio cristão nas artes desenvolve-se a partir do mecenato da igreja. A arquitetura, pintura, escultura, o teatro e as demais artes são agora financiados pelo clero. Dos vitrais bizantinos as catedrais góticas, dos teatros de rua aos estruturados corais gregorianos. O mecenato da igreja estruturou a produção das mais diversas expressões artísticas. O que não significa necessariamente que este processo transcorreu sem protestos e dissensos, uma vez que, os artistas deixaram sinais de sua insubordinação em suas produções. Sendo inúmeros os casos de cosmovisões divergentes expressas em arte pretensamente cristã.

O que dizer sobre este período? Foi inegável que a contribuição do pensamento cristão ao império trouxe conceitos que eram estranhos ao mesmo e que modelaram positivamente a vida da sociedade. Conceitos como dignidade humana, solidariedade, compaixão, e amor ao próximo certamente tiveram influências positivas sobre a civilização ocidental e humanizaram as faces carrancudas de um império pagão. Porém a síntese desta relação entre a Igreja e o Império estava longe de ser uma cultura cristã, ou uma teocracia na terra. Pois os valores, crenças e ritos pagãos[6] ainda faziam parte deste sistema sendo ocultados sobre o nome cristão.

As degenerações deste tipo de relação foram evidentes para a igreja e a sua pretensão milenarista[7] foi eclipsada pela dura realidade das guerras étnicas, inquisição, do declínio moral e espiritual da cristandade. Tal força coercitiva sobre consciências e sociedades tende a gerar um acúmulo de tensão social que no caso medieval resultou na explosão de movimentos tais como renascimento e reforma que se configuraram como contrapontos as pretensões totalizantes da teocracia cristã. A construção no ocidente de uma proposta de estado laico com possibilidade de convívio entre cosmovisões conflitantes é fruto dos consensos lentamente constituídos resultantes das tensões que remontam ao medievo.

O problema é que a ideia de uma única cosmovisão controlando todas as esferas da vida e da sociedade é uma tentação perigosa, para qualquer sistema de pensamento, seja ele cristão ou não. O paganismo e depois o cristianismo não resistiram historicamente a esta ideia. As experiências comunistas, nazi-facistas, ou de extrema direita tem este elemento em comum.[8] Uma cosmovisão controlando todas as outras e eliminando as ideias dissidentes. O sistema imperial romano domina o nosso pensamento mais do que poderíamos imaginar.

Os adeptos das propostas totalizantes acreditam que estão construindo oásis de coerência e perfeição na terra, mas não passam de beduínos sedentos enxergando miragens no deserto. Manoel Gonçalves Delgado Júnior.




[1] Weltanschauung – Visão de mundo. -  O presente artigo tem por objetivo advertir sobre os riscos de nutrirmos uma pretensão totalizante para a sociedade. O monopólio de uma visão de mundo imposta sobre as demais.  Sobre a evolução do termo na filosofia e teologia ler: CARVALHO, Guilherme V.R. &  LEITE, Cláudio A.C , COSMOVISÃO CRISTÃ, Centro Kuyper de Estudos Cristãos, BH.
[2] Poderíamos citar como terceiro elemento a noção de teocracia judaica, tal como proposta no pentateuco. Mas para o desenvolvimento do artigo em questão, não faremos esta análise.
[3]Estas ideias estão presentes no meu trabalho sobre o governo na igreja.  DELGADO Jr. Manoel G., O PRESBITERATO E O MODELO REPRESENTATIVO DE GOVERNO.  Obra não publicada.
[4] A visão de Agostinho sobre a Cidade de Deus e a dos Homens não foi consistentemente adotada como modelo de relação eclesial com estado. Esta ambiguidade pode ser observada na própria biografia do teólogo de Hipona que na qualidade de Bispo se valeu de um dispositivo militar para o enfrentamento da controvérsia Donatista. Os ecos de tal incoerência se fizeram sentir na história da Igreja.
[5] “Que tem a ver Atenas com Jerusalém? Ou a Academia com a Igreja? Ou os hereges com os cristãos? A nossa doutrina vem do pórtico de Salomão, que nos ensina a buscar o Senhor na simplicidade do coração. Que inventem, pois, se o quiserem, um cristianismo de tipo estóico e dialético! Quanto a nós, não temos necessidade de indagações depois da vinda de Cristo Jesus, nem de pesquisas depois do Evangelho. Nós possuímos a fé e nada mais desejamos crer. Pois começamos por crer que para além da fé nada existe que devamos crer.” - TERTULIANO. De Praescriptione Haereticorum. c. 7. In: BOEHNER, Philotheus, GILSON, Etienne. HISTÓRIA DA FILOSOFIA CRISTÃ: DESDE AS ORIGENS ATÉ NICOLAU DE CUSA. 7a. ed. Trad. Raimundo Vier. Petrópolis: VOZES, 2000. p.138.
[6] KELLER, Timothy, IGREJA CENTRADA, Vida Nova2014, pág.254 e 264. - Sommerville reconhece esta contribuição do cristianismo para as instituições ocidentais e vê nela uma espécie de “capital emprestado.”
[7] A visão escatológica postula que o milênio será o reino de Cristo na Terra diretamente por uma intervenção sobrenatural (pré-milenismo) ou indiretamente por meio do domínio cristão na sociedade (pós-milenismo). O milenarismo foi muito presente no período medieval. Sobre o milenarismo e seus desdobramentos históricos ler: COHN, Norman, NA SENDA DO MILÊNIO. MILENARISTAS REVOLUCIONÁRIOS E ANARQUISTAS MÍSTICOS DA IDADE MÉDIA. Editorial Presença, Lisboa; DELUMEAU, Jean Volume II: MIL ANOS DE FELICIDADE, Terramar, Lisboa, 1997; ESCATOLOGIA E MILENARISMO NA HISTÓRIA DA IGREJA CRISTÃ, Edson PEREIRA LOPES, REVISTA CIÊNCIAS DA RELIGIÃO – HISTÓRIA E SOCIEDADE v. 9 , n. 1 , 2011. Ed. Mackenzie.
[8] Op. cit., pp. 317-465 - DELUMEAU considera as utopias progressistas e socialistas como formas de milenarismo secularizado. 

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