19 fevereiro, 2013

O quarto a renunciar...




O quarto a renunciar...
As polêmicas envolvendo a renuncia de Papas.

Por Manoel Delgado Jr.

           Bento XVI, com a sua decisão comunicada no último dia onze, acabou ingressando num seleto grupo, o dos papas que renunciaram ao pontificado da Igreja Católico Romana. As próprias circunstâncias envolvendo a renuncia dos mesmos, já ilustram bem as características ambíguas desta instituição e servem de fonte de reflexão acerca de suas reinvidicações teológicas.
1 - Bento IX (1033-1046)
Teofilato de Túsculo, sobrinho de seus dois antecessores Bento VIII e João XIX assumiu com apenas dezoito anos, segundo os seus biógrafos foi um dos papas mais indignos daquela épocai devido a sua devassidão e vícios. Era da família dos Condes de Túsculo, e como Papa não passou de um braço do Imperador Conrado II da Alemanha. Em 1044 numa das suas sucessivas fugas de Roma, foi escolhido um Antipapa Silvestre III, contudo Bento IX conseguiu expulsar o mesmo e se restabelecer. Em 1045 vendeu a sua dignidade papal por 1000 liras em prata a João Graciano que depois da negociação passou a se denominar Gregório VI. Assim neste período governaram três papas sendo que os três foram destituídos em 1046.
2 - Celestino V – (1294)
Pietro Del Murrone, homem piedoso para o padrão de sua época, vivia como eremita, tendo fundado uma comunidade, que posteriormente foi incorporada a ordem dos Beneditinos. Aceitou de maneira relutante o cargo havendo renunciado apenas cinco meses depois.ii Assumiu o papado em Perúgia no dia cinco de julho de 1294 e renunciou em dezembro do mesmo ano. Foi sucedido por seu conselheiro Bento Gaetani, que seria conhecido como Bonifácio VIII, o mesmo após assumir o pontificado prendeu Celestino V até o ano de sua morte em 1296.
3 - Gregório XII – (1406-1415)
Angelo Correr, de Venezaiii foi eleito após a morte de Inocêncio VII, se tornando Gregório XII. Tal decisão se deu mesmo após tentativas do Antipapa Bento XIII unificar o cisma católico. Houve conversas entre ambos sobre a possibilidade de renuncia mútua, porém tais tratativas não lograram êxito. Diante disto os cardeais romanos abandonam Gregório e organizam um concílio em Pisa para decidir a questão. Bento XIII e Gregório XII foram intimados, mas não compareceram e no referido concílio elegeu-se Alexandre V como papa e decidiu-se pela deposição dos dois papas ausentes. Como os mesmos não aceitaram a deposição passou a igreja romana a ser governada simultaneamente por três papas! Somente em 1415 no concílio de Constança Gregório XII renuncia ao seu pontificado passando então a exercer as funções de Cardeal-Bispo do Porto.
4 – Bento XVI – (2005 – 2013)
Joseph Ratzinger. Nascido na Baviera. Foi um dos peritos do Concílio Vaticano IIiv foi professor de Teologia em Tübingen, e em diversas outras instituições de ensino teológico. Em 1977 foi eleito Arcebispo e no ano seguinte Cardeal, foi nomeado pelo Papa João Paulo II, em 1981, Prefeito da “Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano”, Cargo que exerceu até abril de 2005 quando foi eleito como Papa adotando o título de Bento XVI.v Neste período ocorreram combates a perspectivas teológicas liberais e progressistas como, por exemplo, contra a teologia da Libertação na América Latina, e as teologias contextuais diversas, o apoio ao movimento carismático católico, a reincorporação de grupos ultramontanistas ao seio da Igreja Católica, que entre suas práticas mais controversas incluem rituais de autoflagelação, o investimento em atividades para a juventude, como a Jornada Mundial, evento que congrega jovens católicos do mundo todo, e que neste ano será sediada cidade do Rio de Janeiro. Considerando a raridade das vezes em que ocorreram renuncias de Papas e as condições controversas envolvendo as mesmas, pode-se inferir que, sua opção pela renuncia longe de ser uma opção meramente administrativa, deve ser em virtude de pressões externas e internas que somadas com as debilidades de uma idade avançada que o levaram a tal decisão.
Concluímos a partir deste breve testemunho histórico que as reivindicações de sucessão apostólica, de infalibilidade papal e do primado de Pedro, ficam seriamente prejudicadas em face dos dados concretos que esta instituição revela dos seus próprios representantes, que ao invés de se assemelharem aos apóstolos e a Jesus, longe disto, distanciam-se dos mesmos de maneira absolutamente clara, lembrando-nos que o período dos apóstolos cessou.

i WOLLPERT-FICHER, Rudolf, Os papas de Pedro a João Paulo II, Ed. Vozes, 5ª edição. Pág. 69-70

ii Op. Cit. Pág. 103-104

iii Op. Cit. Pág. 115

iv GONZALEZ, Justo, Dicionário Ilustrado dos Interpretes da Fé, pág. 548-549

v GONZALEZ, Justo, Dicionário Ilustrado dos Interpretes da Fé, pág. 548-549

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