19 março, 2013

EXISTE UMA REVELAÇÃO GERAL?



“[...]contudo, não se deixou ficar sem testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas, enchendo o vosso coração de fartura e de alegria.”
Atos 14:17

No século XX este foi o tema de um vigoroso debate dentro da corrente teológica denominada Neortodoxia. Para Emil Bruner existiriam pontos de contato entre os cristãos e os não cristãos a partir de uma revelação comum a todos os homens, já para Karl Barth não[1], pois somente o conhecimento de Deus, em Cristo, seria um conhecimento verdadeiro. Alem do que, para Barth, era imperativo contrapor-se a teologia liberal dos seus dias, que na Alemanha estava totalmente comprometida em fortalecer a figura do Füher compreendendo o desenvolvimento histórico do Estado Alemão Nazista como a expressão legitimada da vontade de Deus.
Também do continente europeu, o teólogo protestante Francis Schaeffer escreveu contundentes críticas a teologia natural desenvolvida por Tomás de Aquino, que em sua análise, seria o grande responsável pela ruptura entre verdade e fé, ocasionando a morte da razão e o advento da teologia liberal e a secularização do ocidente. Porém no campo da missiologia poderíamos mencionar obras como as de Don Richardson, o aclamado autor de O Fator Melquisedec obra que se fundamenta na premissa de que Deus teria deixado pontos de contato, nas diferentes culturas do mundo para que o evangelho pudesse ser pregado entre eles.
Diante de opiniões tão diversas, surgem algumas questões: Existe de fato uma revelação geral? Qual seria o propósito desta revelação? Qual seria a sua extensão depois da queda? Seria possível a constituição de uma teologia natural?
Poderíamos definir a Revelação Geral como a revelação que Deus deu a todos os seres humanos desde a criação do mundo, para que os mesmos viessem a contemplá-lo, conhecê-lo (como santo, justo e bom), e para que a partir daí os mesmos pudessem expressar o seu amor e a sua obediência. # Ver Gênesis 1:26-31
Por esta definição, estamos querendo dizer que a revelação geral existiu como o conhecimento de Deus que foi dado a todos os homens, conhecimento este, que é anterior a queda. O seu propósito básico era o de revelar o Criador levando os homens a se relacionarem com Ele.
Com a queda este conhecimento foi drasticamente reduzido, não devido à extinção desta revelação, mas sim por conseqüência da perda da comunhão com o Criador, pela entrada do pecado no mundo; pelos efeitos noéticos [1] do pecado que afetaram seriamente a capacidade de compreensão dos homens, e pela obstinação e resistência que os mesmos passaram a ter contra Deus e a sua revelação.
De acordo com Sproul[2], a revelação geral se divide em duas categorias principais: Imediata e mediada.

Revelação geral mediada.
Salmo19:1-5// Jó 38:41

É a revelação de Deus por meio das obras da criação. Quando olhamos um céu estrelado, o nascer do sol, quando contemplamos a beleza natural de nossa terra, ou quando pensamos na complexidade de um corpo humano deveríamos ser impelidos por desejo incontido de adorar a Deus, o nosso criador. Qualquer desejo em outra direção é apresentado nas escrituras como um ato de idolatria. 

Revelação geral imediata.
(1)Romanos 1:21// (2)Atos 17:28// (3)Romanos 2:14-15
É a norma da lei, que Deus gravou no coração dos homens e a revelação direta que Ele dá de si mesmo. Pode-se falar de um:

(1) Senso divino[3] – O conhecimento de Deus é um conhecimento necessário, sendo reafirmado em diversos povos na figura de um Ser Supremo.

# Platão, Aristóteles (gregos), Cícero (romano), Akhenaton (egípcio) concebiam um Deus único como fonte e origem de todas as coisas.

# No século XIX Andrew Lang formulou o conceito de “Ser Supremo” por perceber que a grande maioria dos povos tradicionais possui na sua cosmologia a figura de um criador do universo, estabelecedor dos destinos, detentor de grande poder e geralmente considerado bom.[4]

# A partir dos estudos mais recentes da fenomenologia da religião, no âmbito da missiologia[5] têm-se demonstrado que o conceito de “Ser Supremo” é comprovadamente bastante difundido entre os povos do mundo, contudo, estes mesmos autores, consideram que seria uma ingenuidade teológica crer que todas as formulações culturais deste Ser Supremo, correspondam ao Deus da revelação geral.

(2) Senso moral – Que é norma da lei gravada nos corações dos homens, para o estabelecimento da vida e para constituição de uma ética comum para o convívio humano. Esta é a base, e a gênese da discussão moderna acerca dos direitos humanos.

#De acordo com o Jusnaturalismo[6] existem valores de caráter universal, que estão associados à identidade humana;

#Atualmente alguns autores tem falado acerca de “valores autônomos[7]” que seriam os valores que não estão confinados a épocas ou lugares; que se revelam concretamente nas tradições humanas, mas as transcendem refletindo a estrutura antropológica humana. São valores tais como a verdade, a beleza, o amor, a esperança, a convivência, a solidariedade entre outros. Estes valores são imprescindíveis para a existência pessoal e comunitária do gênero humano e das demais espécies da criação.

(3) Religiosidade Comum – Outro ponto apresentado como uma evidencia desta revelação geral, seria justamente a constatação da universalidade do fenômeno religioso. Esta religião parte da percepção do homem de que ele encontra-se divorciado do sentido último de sua existência (Deus) e está em constante busca de reparação deste mal estar. A religião seria em seu sentido etimológico mais evidente a tentativa humana de religar-se com Deus.






[1]Efeitos do pecado na mente, após a queda as faculdades cognitivas do homem fora afetadas tendo-se degenerado.
[2] SPROUL, R.C., Verdades fundamentais da Fé Cristã, Vol. 1 Pág.
[3]Ver “Senso divinitatis” e “Semem religionis” em João Calvino. João Calvino apresentou importantes contribuições à teologia cristã sobre o tema da revelação Geral sendo até hoje uma referência quando abordamos esta doutrina.
[4] SILVA, Cácio, Fenomenologia da Religião, Compreendendo idéias religiosas a partir de suas manifestações, Editoras Transcultural. Pág. 53
[5] Op. Cit. Pág. 53-54
[6] Corrente do direito que defende a derivação legal a partir da natureza humana.
[7] LIBANIO, João Batista, As lógicas da cidade: o impacto sobre a fé e sob a fé, 2Edição , São Paulo, Ed. Loyola

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